Iberê
Iberê, no meio da noite, acordou-se banhado em suor. Durante
os poucos minutos que adormecera, debateu-se muito. Maria, em vigília,
prontamente o atende. Iberê arde em febre. Nas últimas
semanas enfraqueceu, está magro, sem forças. Maria
alcança-lhe a água. Iberê rejeita. Quer pintar.
Quer somente pintar. Que Maria o leve para o ateliê.
Em 65 anos de convivência, Maria nunca ouvira um pedido tão
incisivo. Maria compreendeu que nem adiantaria tentar demovê-lo,
aquilo era uma ordem. Por fim, numa última esperança
em impedi-lo, Maria argumenta que era noite de folga da empregada — como
poderia conduzi-lo sozinha ao andar de cima do prédio ao
lado? Iberê pediu-lhe então que fosse até a
casa em frente, que chamasse a vizinha para ajudá-la. Maria
assim o fez, e logo depois, em plena madrugada — como se
conduzissem uma padiola escada acima — as duas mulheres carregaram
o pintor até ao seu ateliê.
... Maria observa Iberê em frente à tela inacabada.
Maria Nota com que vigor, com que força ele se lança à tarefa
de procurar ainda a luz, ainda o ponto, ainda o plano, ainda a
forma. Maria participa desse desenfreado desiderato. A vizinha
por fim desistira de ficar acompanhando o trabalho,, retornara à sua
casa. Iberê e Maria estão a só nos grande ateliê.
A madrugada avança e Iberê trabalha sofridamente.
Padece as dores. Mas essa dor física não lhe afeta,
contudo, o gesto artístico, que é um gesto com a
mesma e costumeira paixão. Maria o acompanha, auxiliando,
alcançando material, lhe dispensando afeto e carinho. Estão
os dois em frente ao quadralhão inacabado.
A tela duela com esse corpo já quase morto. O brilho espesso,
a alvura vítrea do quadro refrata a face do pintor. Está de
joelhos, Iberê está de joelhos e com a mão
firme. Uma mão que luta, muito viva, com a tela por fazer.
Trabalha essa mão. Trabalha essa mão. Em seu desespero,
com as pernas entrançadas, Iberê leva a mão
quase segurando-se à tela. Seu corpo pesa. Embolado. É a
tela, com seu grito tétrico de horror e apego que o prende
ali. A tela inconclusa, a tela que o insatisfaz. É preciso,
então, suportar o embate final, último, derradeiro.
Ai dor! Ai, que dor de Deus!
Maria o assiste. Atravessa a madrugada o pintor a trabalhar no
grande quadro.
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