Quando
cai a Neve no Brasil I
Conheci a neve num domingo. Era como algodão, como os cabelos
de nosso Tio Véio grisalho. O rostinho contra a vidraça,
o sótão bem alto, avistava a neve, as trombetas,
a melodia de tufões de vento. Impressionava. Tinha cinco
anos e comemorava. Será que podia? Os fazendeiros de Bom
Jesus diziam, “judiava” o pobre gado. Os capuchinhos
diziam, coitados!, os da Vila Pinto.
Cozinheiro de tropeadas, nosso Tio Véio sabia: prolongando
o vento pro Norte, entra agosto, faz estragos. E a Vila Porcínio
Pinto sabendo da sua lição por tragédia; ela
e o Estado inteiro. O Rio Grande estava isolado, ruiu rio Pelotas
e pontilhões. Foram chuvas e chuvas fortes que antecederam
o frio e a neve. E nossa neve é nevasca úmida, precedida
de chuva e de vento. Neva barrenta, barro abaixo de zero.
Um tanto pela memória, e as fotos de um Adail Hugen, sei
que aquela neve acumulou, fez estragos, derrubou chaminés,
inutilizou com depósito d’água. E encheu o
Dilúvio, o justo Dilúvio da Vila. O justo rio, judiou,
ficou a Pinto em cheia crescente.
O Dilúvio cortava a Vila e trazia instalado o Canão
da Hidráulica. E nosso Tio Véio, Otílio Córdova
dos Ausentes, era sujeito a histórias medonhas. Apreciava
o Dilúvio. O barro, o cano estreito, e as águas revoltas
por baixo.
O Dilúvio! A igreja. Duas coisas que amedrontavam: atravessar
o Canão da Hidráulica; encontrar o batina preta.
Padre, cadavérico e estranho, o frei Egídio impressionava
as crianças. Não só a elas; naqueles dias
os padres a todos impressionavam.
Sempre impressionado o nosso Tio Véio. Porque ouvia notícias.
Porque sempre ao pé do rádio. O ouvido pregado na
altura do frigidaire, decerto sabia das pontes, as trombetas com
notícias do Esso. Ouvir as trombetas, o Tio Véio
de pé, era já saber fato importante. Não precisava
repreensão. D. Zezé, nossa mãe de estima,
apenas olhava, e já todo mundo quieto. Todos quietos! D.
Zezé era de uma severidade polida. Daquele tempo, também
isso já não se usa: educar com os olhos, com a cartilha
não escrita dos olhos.
Quando
cai a Neve no Brasil III
O inferno é que tinha dado aquela baita neve em 65 e
não havia como anunciar. Bom Jesus não tinha
telefone. Linha por lá só a do ônibus da
Régius, os contatos de frei Getúlio. Mandando “nota” pra
Caldas Junior e com seu programa dominical. Apresentava o “Bom
Jesus em destaque”, programa pra nunca esquecer. O frei
Getúlio na Esmeralda, falando de Vacaria!?
Era só o que havia e foi logo depois da ressaca da neve
que o telefone chegou. Setembro entrou com Central Telefônica
no Bonja, apenas uma, instalada na prefeitura. Completava-se
a ligação e a linha era passada pra um feitio
de confessionário. A mesma cor, o mesmo verniz, a cabine
ficava num corredor. Cada “telefonada” ecoava pelos
corredores do poder. Não que houvesse censura, mas o
que seria a privacidade? Você falando em negócio,
você falando em doenças, você falando em
saudades num “ambiente” assim! Decerto era ruim,
puxa!, e logo se iniciou a campanha pra rede interna ser expandida.
O fórum, a delegacia, o hospital na parte de cima lista.
Também o ginásio a dar o seu nome. Precisavam
do telefone. Frei Getúlio e frei Hermeto viajam seguido,
naquele final de ano foram ao Rio. Buscavam alternativas para
a Comunidade. Os jovens, os pobres, enfim, preocupados com
o rebanho. No Rio, foram ver favelados, o trabalho feito com
eles. Em São Paulo, foram à Cinerama, à Colmeia
Educacional. Comunistas? Sobretudo, frei Hermeto. Mas, e daí?!
Queriam ajudar. Eram uns probleminhas de nada, coisas de guri.
Quando muito, “menores” em “guerra de espada”,
nada comparado à droga que anda hoje em ação.
E os padres preocupados, era Roberto e Erasmo sem parar: o
me aqueça nesse inverno. Era o inferno!, uns “causadores
de desordens publicas”. E O juiz, Donato João
Sehnem, decidiu: baixava a portaria, criava com ela o Comissariado
de Menor. Ninguém confirma, mas parece que nomeou o
próprio Frei Valdemar! Ou seria Abilinho?, o Seu Abílio
Madeira, protético por vocação...
Ninguém me ajuda, só lembram daquela nevada e
dos sinos depois repicando. Sinos festivos, embora uma nota
destoasse na programada noite feliz: frei Hermeto passou um
Natal ruim. Era o fracasso da cevada, a colheita com os De
Zorzi na parceria que se fez. Aquela neve do agosto continuava
a entristecer. Ainda assim a igreja trocou de Kombi. Trocou
pra um modelo 66.
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